advérbio de intensidade terminado em mente

por leticia fontanella

Março 16, 2009

Repressão

Eu. Eu ainda espero pelo tempo em que não precisarei mais disso. Quanto desejo vou ter que reprimir para parecer decente? Quanta vontade será imediatamente rejeitada por um mundo mais justo? Eu confesso, meu bem. Sou criminosa. Desejei e deixei ser desejada. Senti os arrepios e meu sangue fluía para uma párte do meu corpo – aquela parte que tantos querem. Mas, eu sou decente, eu sou justa, eu durmo o sono dos inocentes, enquanto o mundo lá fora caminha em direção ao real.

por leticia fontanella | 00:33
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Setembro 30, 2008

Crente, aquele que crê

Joana, 39 anos. No Terminal Guadalupe, entrou no ônibus no horário de sempre. Procurou um banco vazio e encontrou um assento no fundo, ao lado da janela. Por mais que os terrenos baldios e as luzes a desconcentrassem, resolveu sentar. Fechou os olhos, fez o sinal da cruz e começou a orar. Na glória do Senhor, pequenas rugas formavam-se entre os olhos e a boca fazia movimentos rápidos deixando escapar palavras abençoadas pelo Pai.

Agradeceu a Deus por mais um dia vencido em nome de Jesus. Agradeceu pela saúde, pelo trabalho e pela benção da vida. Pediu a Ele que a acompanhasse e não a deixasse cair em tentações terranas, para que pudessem estar juntos na eternidade celestial. Aleluia, Senhor. Encontrou Jesus e pela glória e poder Dele, conseguiria manter o amor e honra. Fez novamente o sinal da cruz e entoou em silêncio louvores e adorações.

O ônibus parou no ponto da Avenida Paraná e algumas pessoas desembarcaram. Joana abriu os olhos, fechou novamente e fez um último pedido. "Senhor, pela sua graça e bondade, convida este homem para entrar na sua vida e faz com que ele me pegue de jeito".

Fez o sinal da cruz, levantou e se sentou perto do motorista.

- Oi, Osmar – sorrindo maliciosamente.

por leticia fontanella | 03:05
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Setembro 18, 2008

Desculpe-me por culpar o tempo, quando, na verdade, falta é talento.

por leticia fontanella | 01:03
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Agosto 16, 2008

Auto rascunho

Carmen retirou um cigarro do maço, posicionou o cinzeiro no melhor ângulo e acendeu. Levantou a mão na altura do rosto, balançando, e pensou 'estou confusa'.

Essa sempre foi minha pose de doida descolada preferida. Seja com platéia em bar cheio ou no conforto do lar doce lar. Admito que prefiro a primeira opção, para não disperdiçar a sensualidade do ato. E acredito que sensualidade só existe quando há um mais um. Ou uns. Ou vários. Assim como ser bem resolvida – só sou bem resolvida quando há um mais um. Ou uns. Ou vários. Nesses dias nublados, sozinha – apenas eu e a merda da minha consciência boxeadora –, corro perigo. Sorteio números de telefone para convites tentadores. Todos recusados. Poderiam até render uma boa trepada, mas, estamos no inverno e as pessoas sentem frio ao tirar a roupa. Prefiro acreditar nisso para não pensar em rejeição. Se escolho a última opção, sozinha, mal resolvida, perco o escasso auto-controle. Aí, perco também a graça e viro dramalhão mexicano. Ok, paro de enrolar: ficar sozinha me deprime.

Nem falo da solidão em si. Aproveito bem os momentos em que posso escolher o sabor da pizza sem perguntar 'amor, tem certeza que não quer calabresa que eu odeio?'. Adoro utilizar todo o espaço da cama e fumar sem me preocupar se a fumaça incomoda o vizinho. Mas, ficar sozinha exige monólogos permanentes e sinceros. Monólogos nunca são comédias, sinceridade sempre dói. A minha calça fica mais apertada, meu cabelo amassado. e não paro por aí: eu viro má, mentirosa, cretina e cruel. Penso e repenso e analiso toda a minha vida. Ela já não á grande exemplo de o que eu quero ser quando crescer. Nessas horas, vira a merda suja em que vivemos. É, mastigo e saboreio todas as minhas frustrações. E as alheias – claro, eu tenho culpa por todas, do desmatamento da floresta amazônica e efeito estufa ao dinheiro que minha mãe perdeu no caminho do banco para casa. Todas as coisas no mundo são minha culpa. Eu se não são, eu poderia ajudar a piorá-las nesse exato momento. E não suporto remoer tanto sofrimento junto, tantas pessoas morrendo e matando por minha causa. Eu, eu, eu. Só o que penso agora, eu. Eu aqui, eu ali, um mundo de leticias, como se eu, Malkovich, entrasse no recipiente do sétimo e meio. Acabo amanhã.

por leticia fontanella | 16:03
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Julho 25, 2008

Sobre as pombas novamente

Ao meu lado, ela parecia uma pombinha. Branca, fugindo dos assuntos e comendo as migalhas.

por leticia fontanella | 19:18
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Março 14, 2008

Eu, as pombas e as migalhas.

por leticia fontanella | 21:27
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Janeiro 13, 2008

Pequeno diálogo sobre a ineficiência

- Está quente! Me empresta esse ventilador?
- Não, tira a roupa.
- Eu estou sem roupas.
- Ah. Desculpa, não percebi.

por leticia fontanella | 01:21
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Não é nada demais

Não é nada demais. Apenas mais uma sexta-feira no bar. Eu aqui, você aí. Nada demais. Acendo um cigarro que está pela metade no cinzeiro e nem é meu. Mas, você sempre disse que eu era elegante, mesmo de camiseta de dormir. Eu acredito. Continuo elegante com esse cigarro usado. Não tem marca de batom, nem está amassado. Acendo, porque deixaram para mim. Para as minhas mãos pequenas e elegantes.

(Só gosto da minha própria fumaça, as outras me ardem os olhos, Inês.)

Aperto as pálpebras com força, enquanto trago e sinto dor. Eu aqui, você ali tira o caderninho do bolso e anota uma frase com a sua síndrome-tarantino. Mas, dessa vez, a idéia perfeita não veio das minhas noites de insônia. Deve ser de alguma loira magricela dessa sua mesa tão animada.

por leticia fontanella | 01:20
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Ameaça nonsense

Um casal. Não. Antes, um homem e uma mulher. Sentados na mesa da cozinha, depois de uma noite de pequenas mentiras gentis e gemidos abafados. Ela joga o cinzeiro com força na direção daquele corpo sem graça. Fuma e bate a cinza no chão, tudo normal, e diz:
- A culpa é sua.
- Eu nunca disse que te amava.
- E nunca disse que não.
- Eu nunca disse que te amava.
- Mas, você abriu a lata de conservas pra mim.
- Estava sendo gentil.
- Eu não preciso de gentilezas. E você deveria saber disso desde que queimaram sutiãs.
- Você é feminista?
- Não, eu sou ariana com ascendente em libra.
- Não gosto de horóscopo.
- Azar o seu. Eu gosto de todos os tipos de ilusão.
- Então nós podemos continuar nos vendo?
- Não, você não entende as minhas piadas.
- Elas não fazem sentido.
- Para o homem com quem eu gostaria de trepar fazem.
- Quem é ele?
- Qualquer um. Podia até ser você, se fosse mais sensível e menos gentil.
- Você é louca.
- Você deveria ter medo de mim, babe.
- Os seus cabelos de manhã lembram mesmo os da Glenn Close.
- Eu fervo coelhos e carne humana.
- E qual pedaço de mim você ia ferver?
- O tornozelo direito.
- Por que o direito?
- Acabei de escolher. Mas, poderia apenas arrancar a dentes. Nesse caso, o esquerdo.
- Por que o esquerdo?
- A culpa é sua. Porque você é, assim, ruim. Vou anotar meu telefone, pode ligar se precisar...
- De sexo?
- De bom gosto e bom senso.
- Você é louca.
- Você deveria ter medo de mim, babe.

por leticia fontanella | 01:19
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Café solúvel e jazz

No meio da noite, talvez duas, talvez três, acordo com o som do saxofone que vem de alguma janela vizinha. Um jazz meio nosso, meio solidão. Hipnose e aroma. Cheiro de café solúvel derretendo em água fervente. E eu sigo com olhos, ouvidos, nariz e boca seca pedindo cigarro. Pra te ouvir. Aquele jazz pra minha insônia.
Busco luzes acessas, sombras nas janelas, vidas vivas. Nada. Só eu e você, que nem é luz nem sombra. Só solidão sonora. Eu e a música personificada presas em uma câmara acústica. Assim, sua dor se dissipando no ar de outono. Ar em movimento e estrelas invisíveis em um teto pintado com tinta acrílica branca.
Bom que me prendo em você e esqueço do eu cortante. Eu afiado como lâmina nova. Eu olvidável derrubado com um dó supersônico. Ré, mi,fá, sol, lá, si. Dó. Não sei se sinto mais de mim ou de você.

por leticia fontanella | 01:12
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Frívola

Estava no café há mais de meia hora. Sentada na mesa do canto, lia Madame Bovary e se divertia com cigarros, da forma como pessoas elegantes o faziam. Tentava se concentrar, mas, olhava para a porta quando alguma pessoa entrava, não conseguia sair da página quarenta e cinco. Estava atrasado, ela estava esperando. Então, ele entrou, procurou seus olhos grandes e castanhos e sentou-se:
- Estou atrasado.
Ela terminou de ler e colocou um palito de mexer café para marcar a página. Fechou o livro, com ar de desinteresse.
- Tudo bem.
Deu uma última tragada da mesma forma elegante, levantou o rosto e lançou a fumaça para cima. Ficou a observando se dissipando no ar, apática.
- Estava comprando agrião. Amo agrião, uma longa fila. Me atrasei.
- Tudo bem.
Apagou o cigarro devagar, batendo várias vezes no cinzeiro cheio. Sempre permanecia uma pequena ponta laranja acessa. Não era boa nisso de apagar cigarros, nem de pisar neles, enquanto andava. Tentou vários métodos para medir a distância em que o jogava, a velocidade do ar e qual o tamanho do passo. Errava, sempre.
- Estava lendo, enquanto te esperava.
- O que fez de bom hoje?
- Li a página quarenta e cinco.
- Mais alguma coisa?
- Pintei as unhas de vermelho, é outro tom - esticando as mãos.
- Frívola.
- Compulsiva.
- Frívola.
- Lascívia.
- O quê?
- Lascívia é uma palavra tão bonita quanto frívola.

por leticia fontanella | 01:11
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Hiperlativa

Marion. Sempre em sua cama. Sempre deitada sensualmente. Sempre com sua blusa de botões. Sempre com suas unhas vermelhas. Sempre com seus cabelos para o lado esquerdo. Sempre com seus cigarros blasés. Sempre ouvindo mulheres histéricas. Sempre com seu sorriso de boca fechada. Marion, Marion, Marion.
Seu apartamento parece sair de um filme da década de vinte. Seus vinis tocam tango e franceses melancólicos. Seu perfume faz John entrar. Então, ele entra, diz que a ama e a come. Ou a come e diz que ama. Depois, vai embora com ar de desilusão, carregando toda a intolerância da pequena Marion para assuntos afetivos. Ela queria abrir o coração, mas, só conseguia abrir as pernas. Charles vem porque ela implora. Não suporta a rejeição e entre copos de vinho barato o deseja como posse. Não suporta a monotonia do dia e a insônia das madrugadas. Insuportável é o mundo, como comer, ver filmes em preto e branco, ler Fante, limpar o banheiro, beber vodca ou chorar suas dores. Mas, não suporta a rejeição. Leon não vem, porque quer ignorá-la. Mas, suas palavras sobre sua música preferida soam como poesia. Marion não gosta de poesias, nem de clichês. Thomas aparece, às vezes, para encontrar o prazer que Marion proporciona. Ela leu poucas coisas de Bourdieu e sequer compreende a linguística velha de Saussure, mas, sabe trepar e fumar como ninguém. Uma obra de arte, como diria Richard, quando vem em busca de inspiração para um novo conto. Ele quer escrever um livro, mas, ela nunca foi interessante o suficiente. Só contém caras e bocas e fumaça, muitas neuroses e alguns sentimentos. Derramando sua mediocridade, enquanto todos eles tocam sua pele branca e sussuram falsas palavras de amor, por piedade.

por leticia fontanella | 01:09
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Brigitte Bardot

Eram os primeiros dias de inverno, aqueles que costumavam ser mais frios. Estava esperando há uns cinco minutos e como sempre detestando sua pontualidade britânica. Ele chegou no horário e trouxe os cds que ela tinha emprestado. Todos eles e uma jaqueta de listras que há meses dividiam.
- Já começou?
- Ainda não.
- Vamos entrar?
- Vamos embora?
- Quê?
- Eu quero ir embora...
Não queria ir embora. Mas, não podia fazer de conta que estava tudo bem, não ia deixar acabar sem que tivesse tentado, ao menos, fugir. A culpa era do cinema, ela sabia. A culpa era dela. De quem era a culpa? Das calcinhas que ele não gostava? Das noites alcoólicas em que ela dizia com quantos caras já tinha dormido? Dos filmes que assistiram e ele não gostou? A culpa era dela, sempre foi. Olhou para o chão:
- Por que a gente não vai embora? Você ri e diz que se diverte com essa minha indecisão? A gente volta pra casa e você me joga na cama e me beija como nunca e sempre e amanhã acorda e fica tudo bem e diz que me ama.
Ela o beija. Ele beija seu rosto e diz:
- Eu te amo.
Entram no cinema porque o filme está começando.

por leticia fontanella | 01:06
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Blood bitch

Trepamos, estupidamente. Éramos duas pessoas sem sentimentos, ouvindo meus sussurros e suas ordens, num escuro de sombras e movimentos. Seu nome, minha sensatez, esqueço dessas coisas irrelevantes e faço tudo que minhas calcinhas brancas de algodão dizem que não aceito.
Depois, ele respira fundo e fecha os olhos. Eu choro entre ecos e palpitações. Levanta, pega um cigarro, acende e fica olhando para a fumaça que mal aparece na escuridão. Fecha os olhos novamente como se trepasse com a merda do lucky strike. Pede se eu quero um e vai até o banheiro, antes que eu responda.
Não consigo me mexer, não consigo dizer que não quero, não consigo vestir minha calcinha branca de algodão, não consigo secar minhas lágrimas inoportunas.
Volta e acende mais um. Não fala nada, passa a mão no meu rosto úmido e põe o cigarro entre meus dedos. Vira-se, coloca Maysa Matarazzo pra tocar. Não reajo, nem choro mais. Ele passa a mãos nas minhas coxas e me abraça. Não falo, não fumo. Ele fala que me ama pra caralho.
Ne me quite pas, ne me quite pas, ne me quite pas.

por leticia fontanella | 01:05
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Plágio

A campainha barulhenta tocou. Odiava quando a campainha barulhenta tocava. Aliás, devia estar velha mesmo, odiava qualquer coisa que não fosse boa música ou bom filme, ultimamente. A campainha barulhenta tocou de novo. Vestiu sua camiseta do Morrisey e foi atender.
- Oi.
- Oi.
- Oi.
- Eu tava com saudades.
- Eu tava dormindo. Entra e fecha e porta.
Beija. Com sono, com pressa, sem vontade. Ele ainda fala:
- Passei pela loja ontem e vi um cd do My Bloody Valentine. Lembrei de você, mas, tava caro. Um dia eu compro para nós.
- Cadê a merda dos meus cigarros?
- Aqui.
Acende, coloca um cd pra tocar.
- Hey, você comprou o cd da Beth Gibbons.
- Comprei. Surtos consumistas. Odeio consumismo.
- Me beija.
- Eu to fumando agora. Espera.
- Eu não ligo.
- Eu não quero.
Tempo, silêncio. Ele não consegue suportar:
- Terminou o livro?
Cinzeiro em uma mão, começou a arrumar as coisas no lugar.
- Não, dormi. Acho que vou ao médico, semana que vem.
- Tá sentindo alguma coisa?
- Sono. Odeio sentir sono.
- Todo mundo sente sono, não precisa ir ao médico. Tá sentindo mais alguma coisa?
- Não. Vou ao médico, odeio sentir sono.
- Devem ser esses seus remédios. Precisa mesmo de tantos?
- Eu não vivo sem eles. Quero outro para não sentir sono. Tem remédio pra tudo hoje em dia.
- Tem buscopan.
- Assistiu ao filme ontem?
- Sim.
- Ok. Não conheço mais ninguém que nunca tenha visto Fellini.
- Não exagera.
Colocou vodka pela metade num copo de estrelinhas. Terminou o cigarro.
- Quer?
- Quero. Eu gosto de você.
- Eu sou insuportável.
- É. Mas, eu gosto de você.
Sentou no mesmo sofá que ele estava sentado.
- Eu sou insuportável e tenho sono.
- Cala a boca.
Ele a beijou. Ele sorriu. Ficaram abraçados por alguns instantes. Tonta, levantou para fazer café.
- Quer café?
- Não. Eu queria você.
- Clichês agora?
- Pra te fazer sorrir.
- Odeio clichês.
- Como? Você gosta de Almodóvar.
- Muito engraçado.
Ele levantou e foi até a cozinha. Estava incomodada, olhava para a água fervendo no microondas. Café solúvel, leite desnatado, adoçante. Voltam para o mesmo sofá. Ele a beija. Ela o beija. Daqueles beijos devagar, mordendo os lábios, com os olhos abertos para poder olhar. Deitam-se no chão. Ele tenta beija-la. Ela olha para o teto para fazer algum comentário nonsense.
- Não vivo mais sem microondas.
Ele continua beijando.
- Eu tive um sonho engraçado essa noite.
Ele continua beijando.
- Pára.
- Desculpa.
- Eu tive um sonho engraçado essa noite.
- Você não dormiu a noite.
- Modo de falar.
- Você estava com alguém ontem?
- E se estivesse?
Ele sorri:
- Eu não iria embora.
- Eu não faria isso.
Faria sim, estava mentindo. Tinha problemas com relacionamentos: não conseguia ficar com ninguém porque alguém melhor podia aparecer.
- Com o que você sonhou?
- Coisas estúpidas.
- Não vai contar?
- Não.
- Por que começou então?
- Não comecei. Odeio contar sonhos. Preciso dormir.
- Posso dormir com você?
- Não sei.
- Ah.
- Ok, fica. Mas, eu preciso dormir.
Deitam, ele a abraça. Ela sorri e fala:
- Ok. Eu gosto de você.
Ele sorri.

por leticia fontanella | 01:03
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